TOUR DE FRANCE
Antevisão
» O rei, o delfim e outros pretendentes ao trono

Foto GETTY IMAGES
+A 96ª edição da Volta a França sai amanhã para a estrada, envolta num mediatismo que há anos não se via. Se, no ano passado, o início da prova ficou marcado por uma falta de interesse generalizada, este ano, as atenções há muito que estão voltadas para a prova-rainha do ciclismo mundial, sobretudo devido a um tal de… Lance Armstrong. O regresso do heptacampeão do Tour após quatro anos sem competir constitui, sem dúvida, a grande atracção da Volta a França 2009, agradando a uns porque desejam vê-lo somar mais uma vitória (ou, pelo menos, a fazer uma prestação a alto nível) e a outros porque sonham com a sua humilhação. Curiosamente, até da organização da prova Armstrong recebe ‘tratamento especial’: não houve qualquer constrangimento em admitir que o norte-americano seria o seu alvo principal nos controlos anti-doping…
+Infelizmente, doping continua a ser uma palavra demasiado ouvida na Volta a França, com dois casos a suscitarem polémica nas inscrições para a prova. Alejandro Valverde, vencedor da Dauphine Liberé deste ano, viu-se impedido de participar no Tour porque se encontra proibido de correr em Itália (onde passará uma das etapas) devido ao seu suposto envolvimento no Caso Puerto. Já Tom Boonen apenas hoje viu a sua participação no Tour autorizada pelos tribunais franceses após um controlo positivo de cocaína em Abril deste ano - no ano passado, ficara afastado exactamente pelo mesmo motivo mas o argumento de que a cocaína, embora ilegal, não constitui uma substância potenciadora de capacidades garantiu-lhe o regresso ao pelotão da Volta a França.
+ Outra polémica na preparação para a Volta a França tem sido a proibição do uso de rádios em duas das vinte e uma etapas, com directores de equipa a protestarem em uníssono alegando que o seu uso diminui os riscos que os ciclistas correm. No entanto, embora se compreenda a sua insatisfação, da perspectiva de um adepto de ciclismo, poderá ser interessante ver como se comportam as equipas quando desprovidas de algo que se tornou tão banal – e essencial – nos últimos quinze anos.
+ Contudo, não só de regressos e polémicas se faz a prova deste ano: o Tour 2009 promete ser uma prova aberta e muito disputada, contando com a presença de quatro anteriores vencedores – Alberto Contador e Armstrong, da Astana, Carlos Sastre da Cervélo e Oscar Pereiro, da Caisse d’Épargne. Entre os favoritos, o principal candidato à vitória é Contador: vencedor em 2007 do Tour e, em 2008, do Giro e da Vuelta, o espanhol é agora não só um bom trepador mas também um bom contra-relogista, como deixou evidente a sua vitória nos campeonatos nacionais de Espanha na semana passada. O maior inimigo de Contador poderá ser mesmo a sua equipa devido ao potencial destabilizador da presença de Armstrong – se o norte-americano se sentir forte o suficiente para lutar pela vitória, tal poderá produzir uma divisão na equipa e isso nunca é bom sinal numa prova de três semanas de duração. Johan Bruyneel terá que gerir esta situação com todo o cuidado caso queira juntar uma nona vitória no Tour ao seu currículo… Todavia, o duelo pelo triunfo final não está reservado apenas ao ‘rei’ regressado ou ao novo delfim do ciclismo mundial: Carlos Sastre, o vencedor do ano passado, certamente lutará pelo segundo Tour consecutivo; Cadel Evans (Silence-Lotto) continua à espera da sua oportunidade para vencer; Denis Menchov (Rabobank) vem de uma vitória no Giro d’Itália; os irmãos Schleck (Team Saxo Bank) são candidatos certos aos postos cimeiros da classificação; e ainda há lugar para outsiders como Roman Kreuziger (Liquigas) e Luis León Sanchez ou Oscar Pereiro (Caisse d’Épargne).
+ Em relação às outras classificações, a confirmação à última da hora da presença de Tom Boonen (Quick Step) veio trazer maior animação à disputa da camisola verde. Ainda assim, o inglês Mark Cavendish (Team Columbia) continua a ser o principal favorito, embora restem algumas dúvidas sobre a sua capacidade de passar as grandes montanhas. Na luta estarão também os já habituais Oscar Freire (Rabobank) – vencedor do ano passado desta classificação - e Thor Hushovd (Cérvelo), bem como Daniele Bennati (Liquigas) e Gerald Ciolek (Milram). No que diz respeito à camisola de montanha, espera-se que David Moncoutié (Cofidis), Robert Gesink (Rabobank), Frank Schleck estejam envolvidos na disputa, com o primeiro em ligeira desvantagem por ter que acarretar com as tradicionais expectativas exageradas do público francês. Por fim, nas contas da camisola branca, Andy Schleck ter-se-á que defender de Kreuziger e Gesink caso queira vencer esta classificação pelo segundo ano consecutivo.
+Entretanto, o público português terá motivos redobrados para seguir a Volta a França: Sérgio Paulinho participará na prova pela segunda vez, ao serviço da Astana e, em particular, de Contador; já Rui Costa estrear-se-á aos 22 anos na maior prova de ciclismo do mundo pela equipa Caisse d’Épargne. De Sérgio Paulinho, não se espera mais do que uma prestação discreta, como uma verdadeiro trabalhador de equipa. Rui Costa, contudo, poderá ter mais oportunidades de brilhar: a ausência forçada de Valverde deixa a equipa sem um verdadeiro líder, abrindo caminho para uma possível estratégia de ataque às vitórias em etapas em vez da vitória na geral.
+ A Volta França começa então amanhã, com um prólogo de 15,5 km nas ruas sinuosas do Mónaco. A passagem pelos Pirenéus será já no próximo fim-de-semana, enquanto os últimos dias de prova serão uma verdadeira loucura, com etapas de montanha intercaladas por um contra-relógio individual e com a subida ao Mont Ventoux a acontecer na véspera da chegada a Paris. Esta edição do Tour tem tudo para ser das mais espectaculares dos últimos anos - esperemos que no final as expectativas tenham sido cumpridas.

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+A 96ª edição da Volta a França sai amanhã para a estrada, envolta num mediatismo que há anos não se via. Se, no ano passado, o início da prova ficou marcado por uma falta de interesse generalizada, este ano, as atenções há muito que estão voltadas para a prova-rainha do ciclismo mundial, sobretudo devido a um tal de… Lance Armstrong. O regresso do heptacampeão do Tour após quatro anos sem competir constitui, sem dúvida, a grande atracção da Volta a França 2009, agradando a uns porque desejam vê-lo somar mais uma vitória (ou, pelo menos, a fazer uma prestação a alto nível) e a outros porque sonham com a sua humilhação. Curiosamente, até da organização da prova Armstrong recebe ‘tratamento especial’: não houve qualquer constrangimento em admitir que o norte-americano seria o seu alvo principal nos controlos anti-doping…+Infelizmente, doping continua a ser uma palavra demasiado ouvida na Volta a França, com dois casos a suscitarem polémica nas inscrições para a prova. Alejandro Valverde, vencedor da Dauphine Liberé deste ano, viu-se impedido de participar no Tour porque se encontra proibido de correr em Itália (onde passará uma das etapas) devido ao seu suposto envolvimento no Caso Puerto. Já Tom Boonen apenas hoje viu a sua participação no Tour autorizada pelos tribunais franceses após um controlo positivo de cocaína em Abril deste ano - no ano passado, ficara afastado exactamente pelo mesmo motivo mas o argumento de que a cocaína, embora ilegal, não constitui uma substância potenciadora de capacidades garantiu-lhe o regresso ao pelotão da Volta a França.
+ Outra polémica na preparação para a Volta a França tem sido a proibição do uso de rádios em duas das vinte e uma etapas, com directores de equipa a protestarem em uníssono alegando que o seu uso diminui os riscos que os ciclistas correm. No entanto, embora se compreenda a sua insatisfação, da perspectiva de um adepto de ciclismo, poderá ser interessante ver como se comportam as equipas quando desprovidas de algo que se tornou tão banal – e essencial – nos últimos quinze anos.
+ Contudo, não só de regressos e polémicas se faz a prova deste ano: o Tour 2009 promete ser uma prova aberta e muito disputada, contando com a presença de quatro anteriores vencedores – Alberto Contador e Armstrong, da Astana, Carlos Sastre da Cervélo e Oscar Pereiro, da Caisse d’Épargne. Entre os favoritos, o principal candidato à vitória é Contador: vencedor em 2007 do Tour e, em 2008, do Giro e da Vuelta, o espanhol é agora não só um bom trepador mas também um bom contra-relogista, como deixou evidente a sua vitória nos campeonatos nacionais de Espanha na semana passada. O maior inimigo de Contador poderá ser mesmo a sua equipa devido ao potencial destabilizador da presença de Armstrong – se o norte-americano se sentir forte o suficiente para lutar pela vitória, tal poderá produzir uma divisão na equipa e isso nunca é bom sinal numa prova de três semanas de duração. Johan Bruyneel terá que gerir esta situação com todo o cuidado caso queira juntar uma nona vitória no Tour ao seu currículo… Todavia, o duelo pelo triunfo final não está reservado apenas ao ‘rei’ regressado ou ao novo delfim do ciclismo mundial: Carlos Sastre, o vencedor do ano passado, certamente lutará pelo segundo Tour consecutivo; Cadel Evans (Silence-Lotto) continua à espera da sua oportunidade para vencer; Denis Menchov (Rabobank) vem de uma vitória no Giro d’Itália; os irmãos Schleck (Team Saxo Bank) são candidatos certos aos postos cimeiros da classificação; e ainda há lugar para outsiders como Roman Kreuziger (Liquigas) e Luis León Sanchez ou Oscar Pereiro (Caisse d’Épargne).
+ Em relação às outras classificações, a confirmação à última da hora da presença de Tom Boonen (Quick Step) veio trazer maior animação à disputa da camisola verde. Ainda assim, o inglês Mark Cavendish (Team Columbia) continua a ser o principal favorito, embora restem algumas dúvidas sobre a sua capacidade de passar as grandes montanhas. Na luta estarão também os já habituais Oscar Freire (Rabobank) – vencedor do ano passado desta classificação - e Thor Hushovd (Cérvelo), bem como Daniele Bennati (Liquigas) e Gerald Ciolek (Milram). No que diz respeito à camisola de montanha, espera-se que David Moncoutié (Cofidis), Robert Gesink (Rabobank), Frank Schleck estejam envolvidos na disputa, com o primeiro em ligeira desvantagem por ter que acarretar com as tradicionais expectativas exageradas do público francês. Por fim, nas contas da camisola branca, Andy Schleck ter-se-á que defender de Kreuziger e Gesink caso queira vencer esta classificação pelo segundo ano consecutivo.
+Entretanto, o público português terá motivos redobrados para seguir a Volta a França: Sérgio Paulinho participará na prova pela segunda vez, ao serviço da Astana e, em particular, de Contador; já Rui Costa estrear-se-á aos 22 anos na maior prova de ciclismo do mundo pela equipa Caisse d’Épargne. De Sérgio Paulinho, não se espera mais do que uma prestação discreta, como uma verdadeiro trabalhador de equipa. Rui Costa, contudo, poderá ter mais oportunidades de brilhar: a ausência forçada de Valverde deixa a equipa sem um verdadeiro líder, abrindo caminho para uma possível estratégia de ataque às vitórias em etapas em vez da vitória na geral.
+ A Volta França começa então amanhã, com um prólogo de 15,5 km nas ruas sinuosas do Mónaco. A passagem pelos Pirenéus será já no próximo fim-de-semana, enquanto os últimos dias de prova serão uma verdadeira loucura, com etapas de montanha intercaladas por um contra-relógio individual e com a subida ao Mont Ventoux a acontecer na véspera da chegada a Paris. Esta edição do Tour tem tudo para ser das mais espectaculares dos últimos anos - esperemos que no final as expectativas tenham sido cumpridas.


















