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Sexta-feira, Julho 04, 2008

TOUR DE FRANCE
Dia 0

» Três semanas para voltarmos a gostar de ciclismo


Foto ASSOCIATED PRESS

Le Tour Toujours” é o mote da edição deste ano da Volta a França, que arranca amanhã para os seus vinte e um dias de competição. Contudo, a frase é sintomática da crise que esta competição e modalidade atravessam: os escândalos relacionados com doping fizeram mossa na prova-rainha do ciclismo internacional mas a posição extremista da organização aprofundou ainda mais os estragos, provocando o alheamento de inúmeros adeptos casuais de ciclismo.

Da edição de 2007 ficaram na memória o controlo positivo de Alexandre Vinokourov, o afastamento forçado de Michael Rasmussen e o aparecimento de uma nova estrela, Alberto Contador, vencedor do Tour após a expulsão do dinamarquês. O ciclista espanhol assinou entretanto pela Astana, que conta também com Andreas Klöden e Levi Leipheimer nas suas fileiras. No entanto, a intransigência da organização da Volta a França em relação a equipas ligadas a escândalos de doping (relembre-se que Vinokourov era justamente atleta desta equipa) levou à exclusão de uma das melhores formações internacionais, impedindo Contador – vencedor do Giro de Itália deste ano – de defender o seu título. Percebe-se que esta é uma posição de força contra o doping mas até que ponto é que a “verdade desportiva” sai beneficiada por esta atitude se alguns dos melhores ciclistas nem sequer podem participar na prova?

Sem a Astana, a Volta a França 2008 sai para a estrada amanhã com Cadel Evans (Silence-Lotto), segundo classificado no ano passado, a envergar o dorsal 1. Curiosamente, entre os 180 participantes existe apenas um antigo vencedor, que nem sequer o foi na devida altura: Óscar Pereiro, da Caisse d’Épargne, vencedor do Tour 2006 após um controlo positivo de Floyd Landis. À partida, esta ausência de grandes nomes é um ponto negativo para a prova deste ano; todavia, esta mesma situação deixa a competição mais aberta, prometendo uma Volta a França bastante animada. Entre os favoritos destacam-se sobretudo o já referido Cadel Evans, Alejandro Valverde (Caisse d’Épargne) – vencedor da Dauphine Liberé deste ano –, Denis Menchov (Rabobank) e Carlos Sastre, da CSC. Esta equipa, contudo, está numa posição algo complicada: com Andy e Franck Schleck também com aspirações a uma possível vitória, a estratégia da equipa tanto poderá resultar em sucesso absoluto como em falhanço a toda a linha, visto que não é fácil gerir uma equipa sem um chefe-de-fila claramente definido (que o diga a Discovery Channel em 2006…). No entanto, a disputa pela camisola amarela não se restringe apenas a este lote de ciclistas: Kim Kirchen (Team Columbia), Damiano Cunego (Lampre) – vencedor da camisola branca em 2006 –, Riccardo Ricco (Saunier Duval), Leonardo Piepoli (Saunier Duval) e até mesmo outsiders como Mauricio Soler (Barloworld) e Roman Kreuziger (Liquigas) podem apresentar uma candidatura séria ao pódio final da Volta a França.

Se a camisola amarela não tem dono à partida, também a camisola verde poderá ser disputada por vários ciclistas, embora seja notória a ausência de Tom Boonen por ter acusado cocaína num controlo recente. Robbie McEwen (Silence-Lotto), vencedor desta classificação em 2002, 2004 e 2006, certamente quererá dar continuidade a esta sequência e envergar a camisola verde por uma quarta vez nos Campos Elísios, apesar dos seus 36 anos. Contudo, para tal terá que ultrapassar a forte concorrência de Thor Hushovd (Crédit Agricole), Baden Cooke (Barloworld), Mark Cavendish (Team Columbia) e Oscar Freire (Rabobank), os principais favoritos para além do australiano. Quanto à camisola de montanha, o vencedor do ano passado, Mauricio Soler, terá que contar com Damiano Cunego, os irmãos Schleck e Amets Txurruka (Euskaltel) como potenciais adversários. Por fim, o lote de favoritos à camisola branca – reservada ao corredor jovem melhor classificado – inclui Andy Schleck, Riccardo Ricco, Thomas Lovkvist (High Road), Mauricio Soler e Roman Kreuziger.

Pela primeira vez desde 1967, o Tour vai sair para a estrada com uma etapa em linha em vez de um prólogo – e os 198 km entre Brest e Plumelec constituirão um início adequado à prova, oferecendo logo quatro contagens de montanha de quarta categoria e uma chegada à meta na qual o último quilómetro e meio terá 6,7% de inclinação, com o vencedor da etapa a ter a honra de ser o primeiro a envergar a camisola amarela. O resto do percurso da Volta a França incluirá dois contra-relógios – a 8 e 26 de Julho –, cinco etapas de alta montanha e quatro etapas de média montanha, com a passagem pelos Pirenéus a abrir a segunda semana de competição e os Alpes a preencherem o início da terceira semana, com direito a uma incursão por Itália. Pelo meio, as subidas aos já míticos Alpe d’Huez, Col du Galibier, Col d’Aspin e Col du Tourmalet serão certamente momentos a não perder.

A um dia do início da Volta a França 2008, tudo o que se pede é que seja uma edição sem casos de doping e com uma competição justa, aberta e animada, que nos faça recordar a razão pela qual um dia, em tempos, gostávamos de ciclismo. Se tal acontecer, então sim poderemos voltar a dizer “Le Tour Toujours”.

Artigo de Margarida Martins
Publicado às 22:07


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